Renato Perim Colistete

Economia, História e História Econômica

Archive for the ‘Fontes’ Category

Múltiplas hipóteses

Posted by Renato em 14/08/2016

Um passo básico na realização de uma pesquisa consiste na escolha das chamadas hipóteses. Hipótese pode ser definida como uma ideia proposta para explicar um determinado fenômeno, que pode ser ou não corroborada pelas evidências. Longe de ser um procedimento trivial, a escolha de uma hipótese tem suas sutilezas, cujas implicações podem comprometer ou enviesar os resultados da pesquisa de forma irrecuperável. Os problemas envolvidos na escolha de hipóteses são ainda mais acentuados no caso das ciências humanas, em que o objeto de investigação corresponde a ações individuais e coletivas, instituições e estruturas, de natureza distinta de fenômenos físicos e naturais. Um dos maiores riscos é que a escolha prévia de uma ou outra hipótese preferencial acabe por influenciar ou mesmo moldar os resultados do que está sendo investigado.

Às vezes, as hipóteses são derivadas diretamente de uma teoria geral que fornece as variáveis e as relações causais que vão em grande medida definir os resultados da análise realizada. Nesse caso, outras variáveis (ou fatores) e relações são excluídas(os) da investigação e a explicação proposta, quando o estudo é de natureza aplicada, resume-se a testar a significância da hipótese escolhida à luz dos dados coletados. Embora seja um exercício válido no âmbito da teoria adotada, o problema é que nada garante que as variáveis e relações selecionadas sejam realmente as mais relevantes para explicar um determinado fenômeno, de maneira que a explicação (hipótese) oferecida pode estar comprometida na sua origem. Em tese, explicações concorrentes, baseadas em distintas teorias, deveriam ser confrontadas e corroboradas ou não pelas evidências. Contudo, como as próprias evidências utilizadas dependem do que é considerado relevante pelas teorias, sendo validadas internamente a cada uma delas, o mais provável é que as explicações convivam em mundos paralelos, sem comunicação regular ou produtiva entre seus defensores. A predominância de uma teoria sobre outras ou o espaço ocupado por cada uma, nesse caso, vai depender em grande medida de fatores institucionais, inclusive da influência de centros de pesquisa e universidades na formação de novos pesquisadores que irão reproduzir teorias, métodos e explicações mais ou menos em voga.

Nas áreas em que a pesquisa mais se assemelha à montagem de um quebra-cabeças (com várias peças faltantes), como no estudo da evolução das espécies e da história, o papel das ideias preconcebidas (ou teorias) na formulação das hipóteses tende a ser ainda mais marcante, podendo tornar-se um fator que acabe por obscurecer o entendimento da realidade, diante da força que as convenções exercem na escolha das evidências e na busca de confirmação das hipóteses. Nesses casos, é frequente – apesar de indesejável e danoso – que as hipóteses tornem-se praticamente impermeáveis à refutação em vista da seletividade na coleta de evidências. O paradoxo é que essa consequência é exatamente oposta ao que se deseja alcançar com a adoção de um método que se pretende científico.

Em um plano menos geral e mais próximo ao dia a dia da pesquisa empírica, é também comum a situação em que a hipótese faça parte de um modelo elaborado para explicar um fenômeno específico, a partir de evidências coletadas sobre um determinado aspecto da realidade. Aqui, o compromisso com uma teoria geral pode ser relaxado ou até mesmo abandonado, passando o objetivo primário a ser mais a explicação do fenômeno em si do que a corroboração ou não de uma teoria preferida. Apesar de mais flexível, essa abordagem não elimina os problemas com a escolha de hipóteses apontados anteriormente. Assim como na adoção de teorias gerais que derivam explicações de acordo com suas premissas, a escolha de hipóteses que se baseiam em um conjunto de evidências coletadas para entender um problema específico pode igualmente ser distorcida pelas preferências do pesquisador e excluir explicações mais plausíveis e consistentes com os dados.

É nesse caso que um método alternativo na seleção de hipóteses pode ser mais proveitoso e recomendável para a pesquisa. A estratégia consiste na escolha deliberada de múltiplas hipóteses que dêem explicações plausíveis, distintas e concorrentes para um mesmo fenômeno. Esse é o tema de uma matéria recente na Nature, com o título “Research protocols: A forest of hypotheses“. Na verdade, o método faz parte de um acervo antigo de práticas de pesquisa em diferentes áreas, mas que nem sempre tem sido explicitamente formulado e reconhecido enquanto procedimento válido e recomendável. Apesar do artigo da Nature tratar dos protocolos de pesquisa nas ciências naturais, as questões também são comuns à história econômica e outras disciplinas das humanas.

Em vez de apegar-se a uma explicação única, que corre o risco de tornar-se uma busca dissimulada de confirmação, a estratégia das múltiplas hipóteses admite a tendência de vieses estarem presentes na análise do pesquisador e tenta controlá-los pela formulação consciente de explicações alternativas do problema estudado. A presunção é que o confronto dessas hipóteses distintas com as evidências consiste em um guia mais fiel para julgar a plausibilidade e consistência de possíveis explicações de um fenômeno, forçando o pesquisador a questionar suas convicções prévias e avaliar o problema de forma mais distanciada. Esse procedimento também pode ajudar a abrir novas frentes para a busca de evidências que tendem a ser excluídas caso se opte previamente por uma causa única.

Seria ingênuo imaginar que o uso de múltiplas hipóteses tenha a capacidade de eliminar, por si só, os problemas típicos de uma pesquisa que foram notados anteriormente. Por exemplo, a estratégia requer um grau de distanciamento do pesquisador em relação a todas as hipóteses escolhidas que pode ser difícil de ser obtido na prática. Não bastaria adicionar explicações ao lado da preferida para depois descartá-las ou desmoralizá-las. Da mesma forma, nada garante que as múltiplas hipóteses selecionadas incluam as que de fato sejam as mais relevantes para explicar um certo fenômeno. Pensar o contrário seria imaginar que o pesquisador pudesse ser onisciente. Mas pelo menos o hábito de reconhecer as possíveis distorções do julgamento individual, trabalhar com hipóteses concorrentes e tentar contrastá-las de forma equilibrada com os dados oferece uma base mais honesta e profícua para a condução de pesquisas, inclusive as de natureza histórica.

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Solow sobre Piketty

Posted by Renato em 25/04/2014

Muitos já devem ter lido “Capital in the Twentieth-Century“, do Thomas Piketty, ou estão acompanhando as resenhas do livro, que é um dos assuntos mais quentes nas últimas semanas em jornais e revistas. O Pedro Duarte me mandou esta longa e detalhada resenha publicada pelo Solow na New Republic que achei bastante informativa. A resenha do Solow me pareceu superior à publicada por Paul Krugman na New York Review of Books (ver aqui).

Para aproveitar a viagem, comento uma impressão que tive em relação ao texto do Krugman. A resenha dele me deu aquela sensação que se tem quando se lê um texto que diz que alguém descobriu algo há muito conhecido:

“The result has been a revolution in our understanding of long-term trends in inequality. Before this revolution, most discussions of economic disparity more or less ignored the very rich.”

“In particular, he and a few colleagues (notably Anthony Atkinson at Oxford and Emmanuel Saez at Berkeley) have pioneered statistical techniques that make it possible to track the concentration of income and wealth deep into the past—back to the early twentieth century for America and Britain, and all the way to the late eighteenth century for France.”

“It therefore came as a revelation when Piketty and his colleagues showed that incomes of the now famous “one percent,” and of even narrower groups, are actually the big story in rising inequality. And this discover…”

“What do we know about economic inequality, and about when do we know it? Until the Piketty revolution swept through the field, most of what we knew about income and wealth inequality came from surveys, in which randomly chosen households are asked to fill in a questionnaire, and their answers are tallied up to produce a statistical portrait of the whole.”

Esse tipo de análise da desigualdade, que usa percentis, top percentis e informações de impostos e outras fontes para medir renda e riqueza, é algo corrente nos estudos de história econômica da desigualdade há pelo 50 anos (!), sem contar os trabalhos clássicos de Simon Kuznets (1953, 1955) – adiciono: Piketty, Atkinson e Saez partiram de Kuznets na análise das participações dos grupos de renda, como eles exaustivamente mencionam nos trabalhos antigos, assim como Piketty o faz no livro atual.

Ok, sei que Krugman está falando sobre “economistas”, mas a maioria desses estudos a que me refiro é de economistas também, afinal de contas. E mesmo se não fossem, é justificável desconsiderar que existem? Afinal, qual é o custo de se reconhecer o conhecimento acumulado numa determinada área de pesquisa?

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Ferrovias e mercado de trabalho

Posted by Renato em 14/12/2012

Acaba de ser publicado pela Edusp o novo livro de Maria Lucia Lamounier, “Ferrovias e mercado de trabalho no Brasil do século XIX“. É mais uma contribuição original da autora, com evidências e argumentos que revisam o conhecimento estabelecido sobre a expansão cafeeira, as ferrovias, o mercado de trabalho e o desenvolvimento econômico em São Paulo e no Brasil do século XIX (outro livro dela, “Da escravidão ao trabalho livre: a lei de locação de serviços de 1879. Campinas: Papirus, 1988″, é um clássico e referência obrigatória nos estudos sobre legislação e mercado de trabalho no século XIX). Um trecho do prefácio de Colin Lewis, da LSE, dá uma ideia dos temas estudados e de seu alcance:

“Lamounier aborda temas-chave da historiografia, incluindo a reorganização do setor agrário, o crescimento industrial, a urbanização e o desenvolvimento dos mercados – mercado de fatores, bem como a economia de mercado. A abundância de terras, a escassez de mão de obra e de capital e o ‘projeto’ de modernização adotado pelos fazendeiros eram os principais determinantes e motores desse processo. A grande diversidade e complexidade do mundo do trabalho e a revolucionária reestruturação das relações de trabalho, apresentadas aqui em detalhe e analisadas com clareza e de forma convincente, resultam em revisões importantes da historiografia. (…) Como argumenta a autora, para a maior parte do período estudado, o problema básico era a escassez de trabalho regular na economia ‘moderna’, em vez de ‘escassez de mão de obra’. (…) O estudo revê perspectivas existentes e desafia análises tradicionais. Provocará, portanto, debate e definirá uma nova agenda de pesquisa” (p. 18).

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Mais arquivos de jornais

Posted by Renato em 20/05/2012

A melhor notícia do ano para os pesquisadores da história brasileira: todo o acervo do jornal O Estado de São Paulo – desde janeiro de 1875 – estará on-line ainda nesta semana. Para quem no passado já gastou meses lendo microfilmes antigos do jornal, não poderia haver iniciativa mais bem-vinda. As páginas de A Província de São Paulo e, depois, O Estado de São Paulo são uma riquíssima fonte para estudo de qualquer aspecto da história brasileira, inclusive a econômica.

O Estado de São Paulo junta-se agora a outros jornais já disponíveis para consulta dos pesquisadores – em especial o Jornal do Brasil, as Folhas (Folha da Noite, Folha da Manhã e a Folha de São Paulo, embora neste caso com acesso aberto provisório, conforme diz o site) e o Última Hora (ver outros posts sobre arquivos de jornais aqui, aqui e aqui).

É mais uma adição aos projetos de digitalização de documentos históricos que têm ampliado enormemente o acesso a fontes antes de consulta restrita, parcial e difícil, provocando uma verdadeira revolução na pesquisa histórica (ver os vários exemplos listados em “Fontes Digitais”, na coluna à esquerda deste blog).

Atualização: infelizmente uma má notícia após o lançamento do arquivo histórico do Estadão. Ao contrário do que deixou a entender durante a divulgação, o Estado de São Paulo permitirá o acesso integral ao seu acervo somente aos assinantes – acesso livre até dia 25/6 e depois limitado a 20 páginas aos não assinantes. Ou seja, se o pesquisador quiser consultar o material histórico, terá de pagar por isso, mensalmente. Lamentável que o Estado deseje lucrar com um projeto tão importante para historiadores e o público em geral, que se beneficiariam com o acesso aberto e integral a páginas que ajudam a contar a história brasileira. O jornal também se beneficiaria por ter seu acervo valorizado e divulgado amplamente, o que traria reflexos positivos para a imagem e, provavelmente, maiores vendas do jornal no presente. Uma pena que um projeto tão importante tenha sucumbido a uma concepção tão mesquinha da história do jornal.

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Gráficos para história econômica comparada

Posted by Renato em 13/06/2011

Já faz algum tempo que o site Google Public Data Explorer faz parte da lista de “Dados” que se encontra na coluna à esquerda desta página. Recentemente, esse recurso do Google foi aperfeiçoado (dica do Newton Maruyama) e agora tornou-se realmente uma ferramenta que pode ser muito útil a pesquisadores, professores, alunos e outros interessados em história econômica comparada.

O site conta atualmente com dados atualizados de várias organizações, inclusive Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e OCDE. E o mais importante é que os recursos para uso e visualização das estatísticas tornaram-se mais dinâmicos e versáteis, além de ser possível inserir os nossos próprios dados no programa.

Vale um exemplo para ilustrar alguns dos recursos disponíveis. Importante: o exercício requer que se esteja logado em uma conta do Google, como a do Gmail. Peguemos, por exemplo, a participação das exportações de bens e serviços no PIB de Brasil e Coreia do Sul, em comparação com a média mundial, com a base de dados do Banco Mundial (é possível ver como a Coreia parte de um percentual relativamente baixo em 1960 e ultrapassa o Brasil em 1970, ampliando cada vez mais a diferença). A escala pode ser definida como linear ou logarítimica (linear, no exemplo). É possível acrescentrar outros países e combinações, México, por exemplo. Note que passando o cursor em algum ponto da linha de um dos países o gráfico mostrará o valor da variável em um ano específico (por exemplo, 9,1% em 1980 no Brasil).

Na barra dos anos, localizada logo abaixo do gráfico, podemos escolher períodos alternativos para comparação (clique em “Show time settings”). Selecionamos, por exemplo, o período clássico da Industrialização Substitutiva de Importações (ISI) até a crise dos juros e do segundo choque do petróleo (ou seja, até 1979). Ou então podemos visualizar separadamente o período da crise do endividamento externo e de alta inflação até o Plano Real (1980-1995). Ou ainda o período do Plano Real até 2009.

Um outro recurso valioso é o de acompanhamento dinâmico das mudanças das variáveis no tempo. Basta selecionar “bubble chart” no canto superior à esquerda. Vamos comparar os mesmos dados de exportação de bens e serviços de Brasil e Coreia do Sul (eixo vertical) com os dados de PIB per capita desses países (eixo horizontal), agora com a escala em log. Verifique se o cursor está no começo do intervalo e clique na seta de início. O gráfico mostra a variação dinâmica no tempo, assinalando Brasil e Coreia em destaque. Clicando no cursor é possível parar a animação e observar as variáveis em um ano específico (passe o cursor na bubble do país para ver os dados anuais).  Se se quiser acompanhar exclusivamente o comportamento das variáveis dos países selecionados, clique em “Show non-selected bubbles”. Ou ainda, se você quiser visualizar a trajetória dos países, clique em “Show trails”. Também é possível alterar as cores dos países por região, nível de renda e várias outras opções (janela superior à direita).

Enfim, mais uma recurso valioso para consulta, pesquisa e uso em sala de aula.

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Interpretações sobre a América Latina

Posted by Renato em 06/01/2011

Em um post anterior, comentei sobre o novo livro de Luis Bértola e José Antonio Ocampo, Desenvolvimento, Vicissitudes e Desigualdade: Uma História Econômica da América Latina desde a Independência.  Como uma obra notável que é, os autores apresentam novas interpretações sobre diferentes aspectos do desenvolvimento econômico na América Latina, suas conquistas e debilidades.

Uma das minhas maiores discordâncias quanto à interpretação geral apresentada no livro refere-se à posição adotada quanto aos trabalhos de Engerman & Sokoloff (1997; 2002). Bértola e Ocampo minimizam as contribuições desses autores e, de fato, até simplificam exageradamente a sua interpretação, associando-os a um “determinismo estrito dos recursos sobre os aspectos tecnológicos e institucionais” (Bértola e Ocampo, 2010, p. 21). Aqui, aparentemente, determinismo é visto no sentido de fatos fixos do passado determinando de maneira irreversível os resultados do futuro, não havendo lugar para agência humana e mudanças nas instituições.

Essa opinião não faz justiça aos trabalhos seminais de Engerman & Sokoloff, em que recursos, poder político das elites, instituições e políticas públicas interagem de maneira bem mais complicada do que a suposição de um determinismo estrito dos fatores. Para Engerman & Sokoloff, o peso do controle dos recursos produtivos sobre estruturas políticas e institucionais não parece implicar irreversibilidade ou impossibilidade de mudança institucional. A questão central levantada por Engerman & Sokoloff é outra: como a elevada desigualdade na distribuição da riqueza, do capital humano e do poder político influencia a evolução das instituições (educacionais, por exemplo) e, então, o desenvolvimento econômico de longo prazo.

Bértola e Ocampo são muito mais favoráveis à interpretação de Coatsworth sobre as causas do atraso econômico latino-americano (Coatsworth, 1988 e 2008). A opção de Bértola e Ocampo pela interpretação de Coatsworth me parece, contudo, pouco promissora. Para Coatsworth as características coloniais ressaltadas por Engerman & Sokoloff são pouco relevantes para o desenvolvimento de longo prazo na América Latina. A América Latina teria fracassado em incorporar as inovações da Revolução Industrial devido à fragilidade de suas elites locais frente à metrópole. A região necessitava de governos fortes para promover a indústria moderna, “não menos desigualdade e exploração, mas talvez muito mais de ambos, incluindo subsídios às empresas e esforços para manter os salários baixos” (Coatsworth, 2008, p. 560). Então, com o crescimento da economia exportadora a partir de meados do século XIX, houve aumento da desigualdade econômica, fortalecimento das elites agrárias e manutenção de baixos salários devido à imigração e migração interna, mesmo com renovado crescimento econômico. Sob tais condições, a América Latina finalmente viveria seu take off, tardio mas substancial.

Dois grandes problemas da interpretação de Coatsworth são a sua frágil base empírica e sua perspectiva, vamos dizer, “estatista”. Que a desigualdade não é incompatível com o crescimento econômico é algo óbvio, como a história do Brasil demonstra recorrentemente. Algo bastante diferente é assumir que a elevada desigualdade seja uma pré-condição para o desenvolvimento econômico.  Não há evidências no Brasil, por exemplo, de que a concentração da riqueza na economia açucareira do nordeste fosse significativamente menor do que na economia cafeeira, que liderou a expansão econômica a partir da segunda metade do século XIX. Da mesma forma, buscando fundamentar sua hipótese de fragilidade das elites locais, Coatsworth fala em “rebeliões e resistência endêmicas” mesmo nas fazendas escravistas do Brasil (e Caribe) pré-independência, o que não parece ser verdadeiro no caso brasileiro pelo menos.

O outro grande problema da abordagem de Coatsworth é que ela desloca o foco das origens do atraso econômico para as instituições estatais (“capacidades estatais”) e as políticas públicas orientadas para a industrialização (subsídios, contenção de salários), em uma perspectiva reminiscente da teoria cepalina e da teoria da dependência.

Com isso, algumas das linhas mais profícuas de investigação abertas pelos trabalhos de Engerman & Sokoloff são deixadas de lado: primeiro, entender como o controle dos recursos produtivos está relacionado com o poder de elites, instituições políticas e políticas públicas que afetam o conjunto da sociedade; segundo, de que maneira políticas públicas tradicionalmente negligenciadas pela literatura econômica (acesso à terra, educação primária, patentes) podem ter impactos significativos sobre a capacidade de crescimento econômico sustentado de uma sociedade; terceiro, em que medida e porque características institucionais do passado podem ser persistentes e afetar o desenvolvimento econômico de longo prazo.

Essas questões não são simples e requerem uma substancial ampliação de horizontes em relação ao tratado tradicionalmente pela literatura sobre o desenvolvimento ou o atraso econômico na América Latina.

O livro de Bértola e Ocampo é uma importante contribuição à historiografia econômica da América Latina, mas ao priorizar as “capacidades estatais” e “políticas industrializantes”, minha impressão é que os autores se distanciam de questões e respostas cruciais para explicar o atraso econômico latino-americano.

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Um novo livro sobre América Latina

Posted by Renato em 01/01/2011

Um novo lançamento vem complementar o que já tinha sido um bom ano para a historiografia econômica da América Latina, como ilustra a publicação em outubro de 2010 do livro organizado por Salvatore, Coatsworth e Challu,  Living Standards in Latin American History: Height, Welfare, and Development, 1750-2000. Camb., Mass., Harvard University Press, 2010. Nesse livro, inclusive, Claudio Shikida, Leonardo Monastério e Luis Paulo Nogueirol colaboraram com um capítulo, com um estudo antropométrico inédito sobre o Brasil entre as décadas de 1930 e 1980.

Agora, bem ao final de 2010, Luis Bértola e José Antonio Ocampo lançaram uma nova obra que promete tornar-se uma das principais referências sobre a história econômica da América Latina: Desenvolvimento, Vicissitudes e Desigualdade: Uma História Econômica da América Latina desde a Independência. Este livro junta-se aos de Victor Bulmer-Thomas e Rosemary Thorp como as melhores introduções à história econômica da América Latina disponíveis em um único volume.

O novo livro de Bértola e Ocampo apresenta uma síntese do desenvolvimento econômico da América Latina, desde as independências das novas nações no início do século XIX até os dias de hoje. Uma das tarefas mais difíceis em uma obra geral deste tipo é equilibrar uma análise do conjunto do que se chama convencionalmente de América Latina – marcada por uma enorme heterogeneidade étnica, cultural, econômica e institucional – com as histórias dos países que a compõem. O livro de Bértola e Ocampo é um dos mais bem-sucedidos nesse aspecto, com um tratamento detalhado das economias individuais que qualificam e ilustram os diferentes caminhos e resultados da história econômica dos países latino-americanos.

Chama a atenção no livro a riqueza dos dados macroeconômicos, apresentados sempre em uma perspectiva comparativa e articulada aos grandes eventos internacionais. Além de bases de dados da Cepal e de outros autores, Bértola e Ocampo compilam e utilizam estimativas próprias de vários indicadores comparativos que dão uma contribuição que já por si garante um lugar especial ao livro na historiografia econômica da América Latina.

A riqueza dos dados não ofusca o que é o objetivo principal dos autores: apresentar uma síntese que contemple os aspectos institucionais e históricos dos países latino-americanos de forma integrada à análise quantitativa. O conhecimento demonstrado pelos autores das realidades dos diferentes países é um dos pontos altos do livro. A maioria dos leitores chegará ao final do livro com um substancial conhecimento extra das histórias que constituem a América Latina.

Outro destaque do livro é que sua análise se estende praticamente até o final da década de 2010, com um balanço inédito e inovador do desenvolvimento econômico das últimas três décadas na América Latina.  Bértola e Ocampo conseguem abordar esse período com uma perspectiva de longo prazo que salienta continuidades e rupturas com o passado, sem cair no que é talvez o mais grave vício dos estudos que se concentram em períodos recentes: a desconexão com a história, com as tendências de longo prazo, com as dimensões internacionais dos fenômenos que engolfam vários países simultaneamente, embora com respostas e resultados distintos.

Para os leitores brasileiros, esse último aspecto talvez seja um dos mais relevantes, dada a tendência arraigada de vermos a experiência histórica brasileira como algo praticamente único e desvinculado tanto do restante da América Latina quanto do conjunto da economia e da sociedade internacionais. O leitor terminará o livro de Bértola e Ocampo percebendo o quanto esse viés é limitante e equivocado.

Duas ótimas notícias adicionais para os leitores brasileiros: o livro foi publicado simultaneamente em espanhol e português; e mais importante, a versão integral está disponível para download no site da Secretaria Geral Ibero-Americana –  veja aqui. Uma excelente opção para os cursos que tratam da história econômica da América Latina, na graduação e pós-graduação.

Como todo livro de abrangência tão ampla, porém, há possíveis ressalvas quanto às interpretações dos autores. Mas deixo os comentários a respeito para um próximo post.

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Jornal do Brasil histórico

Posted by Renato em 05/11/2010

Já falei em outras oportunidades sobre jornais digitalizados como fontes de pesquisa em história econômica (ver aqui e aqui). Além do Ultima Hora que foi digitalizado (parcialmente) pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, outro arquivo histórico de um jornal muito importante, o Jornal do Brasil, está agora disponível online – veja aqui. Desta vez quem prestou o serviço altamente relevante de utilidade pública foi o Google, como tem feito com outros jornais pelo mundo afora, como já comentamos antes e, especificamente, sobre o exemplo do New York Times.

O acervo digitalizado do JB começa na prática na década de 1930, pois há apenas 3 exemplares para consulta nas décadas de 1890 e 1910, infelizmente. Mesmo dos anos 1930 em diante, há várias edições diárias que não estão disponíveis.  Ainda assim,  o que pode ser consultado já é o bastante para facilitar enormemente a vida dos pesquisadores.

As opções de pesquisa são funcionais. Há a opção de visualizar o acervo por década, ano, mês e dia, sendo também possível pesquisar o exemplar de uma data específica, de uma maneira bem flexível.

Mesmo com os exemplares que faltam, um pesquisador interessado em acompanhar, por exemplo, a evolução da crise iniciada em 1929, ou os efeitos da II Guerra Mundial ou ainda os anos do desenvolvimentismo na década de 1950, entre outros tantos períodos e temas, tem um material interessantíssimo à disposição, podendo guardar as visitas aos arquivos para outras fontes preservadas ainda de uma forma tradicional.

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Brasiliana

Posted by Renato em 01/10/2010

A antiga Coleção Brasiliana agora com vários números em versão eletrônica, de Tavares Bastos a Roberto Simonsen. Uma louvável iniciativa da UFRJ. Clique aqui para consultar e ler.

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Arquivo do NYT

Posted by Renato em 28/08/2010

Mais uma fonte digital importante para os historiadores: o arquivo do jornal “New York Times”. Os artigos com acesso gratuito estão disponíveis entre 1851 e 1922.  A busca é feita na seção “Article Archive: 1851-1980 (Page Image Format- PDF)” (clique aqui para ver), mas é necessário selecionar o período 1851-1922 que está acessível: clique em “advanced” na página indicada acima e escolha, no campo de busca, algum intervalo de tempo desejado para a pesquisa (sempre entre os anos 1851 e 1922).

Um exemplo: a pesquisa com “Brazil” entre 1/1/1889 e 31/12/1889 resulta nesta lista de artigos.  Exemplo de matéria interessante é este (clique no pdf para a matéria completa): “Facts about Brazil; how governed for seventy years and how slavery was abolished”. Ou então este, de 1908, sobre o programa de valorização do café.

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