Renato Perim Colistete

Economia, História e História Econômica

Archive for the ‘Educação’ Category

Iniciativas Locais e Mobilização por Escolas Primárias

Posted by Renato em 08/03/2017

Mais um working paper sobre a história da educação primária na série do Departamento de Economia: Iniciativas Educacionais e Mobilização por Escolas Primárias em São Paulo, 1830-1889. Resumo:

Uma das explicações mais comuns para as deficiências históricas do ensino primário público no Brasil tem sido a presumida indiferença por parte das famílias que não possuíam recursos para matricular seus filhos em escolas privadas. Este artigo aborda essa questão em um período, compreendendo boa parte do Império, em que as condições de acesso às escolas primárias eram especialmente adversas. Pobreza, isolamento, analfabetismo, centralização política e burocracia inibiam as iniciativas locais e criavam poucos incentivos, se algum, para que as famílias se envolvessem com as escolas primárias. O artigo mostra, no entanto, que pais e moradores organizaram-se em diversas regiões da Província de São Paulo e submeteram petições aos seus representantes locais e ao legislativo provincial requerendo a instalação de escolas, desde as primeiras décadas do Império. As câmaras municipais e, na década de 1880, os conselhos de instrução reforçaram a demanda local por ensino primário. Em meio a condições particularmente desfavoráveis, as evidências de mobilização por escolas públicas ganham um significado especial e levantam dúvidas sobre as perspectivas que, nos séculos XIX e XX, rejeitaram a viabilidade do autogoverno local devido à alegada incapacidade do “povo” intervir na esfera pública de forma consequente.

Educational Initiatives and Mobilization for Primary Schools in São Paulo, 1830-1889

Abstract:

One of the most common explanations for the historical deficiencies of public primary education in Brazil has been the alleged indifference of families that lacked the resources to send their children to private schools. This article addresses this issue in a period, comprising most of the Empire, when the conditions for access to primary schools were especially unfavorable. Poverty, isolation, illiteracy, political centralization and bureaucracy inhibited local initiatives and created few incentives, if any, for families to get involved in primary schools. The article shows, however, that parents and residents organized themselves across the province of São Paulo and submitted petitions to their local representatives and the provincial assembly requiring the installation of schools, since the first decades of the Empire. Town councils and, in the 1880s, education councils strengthened local demand for primary education. Under particularly adverse conditions, the evidence of mobilization for public schools gains a special significance and raises doubts about the views that, in the nineteenth and twentieth centuries, rejected the viability of local self-government due to the alleged inability of the “people” to intervene in the public sphere consistently.”

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Pátria iletrada

Posted by Renato em 04/01/2017

Matéria de Rafael Cariello e Tiago Coelho na Piauí sobre minha tese de livre-docência defendida na USP – aqui, com acesso restrito a assinantes, ou na banca de jornal.

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Despesas e Matrículas da Educação Primária

Posted by Renato em 10/09/2016

Novo working paper na série do Departamento de Economia – Contando o Atraso Educacional: Despesas e Matrículas na Educação Primária de São Paulo, 1880-1920. O resumo:

“Este artigo analisa o desempenho educacional de São Paulo em meio às transformações econômicas e sociais do Brasil no final do século XIX e início do século XX. Ainda abaixo da média nacional em 1870, São Paulo alcançou nas décadas seguintes uma das maiores taxas de matrícula e tornou-se um dos líderes da educação primária no Brasil em 1920. O artigo apresenta novas séries de despesas e matrículas que, combinadas com indicadores que medem o esforço fiscal realizado, trazem à luz fatos pouco reconhecidos sobre as escolas primárias de São Paulo entre 1880 e 1920. Primeiro, o acesso ao ensino primário – em São Paulo e no Brasil – continuou extremamente restrito, pouco se diferenciando da situação de atraso em relação aos indicadores internacionais em meados do século XIX. Segundo, o excepcional crescimento das riquezas privadas e das receitas fiscais em São Paulo não foi acompanhado pelos gastos com educação primária. A discrepância entre o ritmo de crescimento das receitas públicas e das despesas com instrução primária levou a um resultado surpreendente: nas primeiras décadas da República em São Paulo, o esforço fiscal destinado à educação primária caiu para a metade do realizado durante os últimos 10 anos do Império.”

Abstract: Counting Educational Backwardness: Primary School Expendintures and Enrollments in São Paulo, 1880-1920.

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Lição

Posted by Renato em 12/02/2016

“Pai, sempre que é fácil, está errado.”

Maria Clara, 11 anos.

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Anonimato

Posted by Renato em 26/10/2014

Direitos fundamentais, mais de cem anos antes da cultura peculiar das “redes sociais”:

“§ 12. Em qualquer assumpto é livre a manifestação do pensamento pela imprensa, ou pela tribuna, sem dependencia de censura, respondendo cada um pelos abusos que commetter, nos casos e pela fórma que a lei determinar. Não é permittido o anonymato.”

Art. 72, Constituição de 1891 (tal qual o §4, Art. 5º da Constituição de 1988).

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O nó do problema

Posted by Renato em 28/09/2014

Alguém apontou o dedo para o problema, nesta e noutras passagens:

“Os únicos debates que ocorrem, e somente nesses momentos de crise, são algo tão infantilizado que não parecem ser dignos do nome. Quem acompanha esses debates com o mínimo de senso crítico tem a impressão de que a USP se tornou uma simples escola. Não é uma universidade, não é um local de pesquisa, não é um local de produção de conhecimento. É simplesmente um lugar que dezenas de milhares de jovens frequentam para ganhar um diploma ao fim de alguns anos.”

O texto completo está aqui.

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Utilitaristas e a universidade

Posted by Renato em 10/09/2014

O que fazer com o domínio obscuro da burocracia, a irresponsabilidade fiscal e o desvio cada vez maior de uma universidade de sua atividade essencial de pesquisa e ensino, como acontece na USP?

“Especialistas” a léguas de distância de sala de aula, pesquisa e atividade acadêmica têm dado todo tipo de resposta à pergunta, inclusive a de que nada está errado, vive-se apenas uma dificuldade temporária, com o que indicam ser ou ter sido beneficiários da própria situação. Mas outra resposta comum é a dos utilitaristas que propõem uma universidade a serviço da “sociedade”, definida como idêntica às encomendas das empresas privadas e dos grupos que controlam os governos (ver aqui, por exemplo).

Como se a USP tivesse chegado a este ponto pelo fato da universidade ter sido perdulária com pesquisa e ensino “desconectados” da sociedade (isto é, o conjunto da população), e não pelo balcão de negócios e o rent-seeking que absorveram boa parte da instituição, justamente o que a maioria desses “especialistas” propõe.

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Ferrovias e instrução popular

Posted by Renato em 06/04/2014

Austrália, Canadá e Brasil por volta de 1870, segundo Tavares Bastos em A Província. Estudo sobre a Descentralisação no Brazil. Rio de Janeiro: B.L. Garnier, 1870, p. 74:

“Apreciai as vantagens incomparáveis da administração independente, das liberdades civis e políticas: com menos da metade de nossa população, o Canadá, essa terra hiperbórea da neve, dos lagos e dos rios gelados, tinha, há quatro anos, um movimento comercial igual ao nosso. As sete colônias da Austrália, a quem aliás dão somente 2.000.000 de habitantes, mais favorecidas pela natureza, mas também muito mais distantes, já faziam em 1866 um comércio duplo do do Brasil, e seus governos já possuíam rendas superiores às nossas, aplicando milhares de contos a estas duas grandes forças modernas, a estrada de ferro e a instrução popular. Pungente paralelo!”

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Rotinas de trabalho

Posted by Renato em 30/03/2014

Como alguns notáveis intelectuais e artistas dividiam as suas 24 horas, no Huffington Post (nenhum cozinhava, lavava louça, arrumava cama, levava filhos para escola, ajudava nas lições, fazia compras, cuidava dos cães, atendia alunos, participava de reuniões intermináveis ou preenchia sucessivos relatórios kafkianos?).

Veja a imagem inteira aqui.

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Beagles, ciência e cientistas – Parte 2

Posted by Renato em 31/10/2013

Ver Parte 1 aqui.

II – O que é científico nos testes com animais?

Outra informação distorcida que tem sido difundida diariamente é a de que “todos os medicamentos que usamos hoje foram resultado de testes com animais”. O argumento sofre da mesma inconsistência que os anteriores. Que os animais tenham sido utilizados em testes de drogas bem-sucedidas não implica que eles tenham sido determinantes do sucesso. Como a prática dos testes com animais era e continua sendo convencional, inclusive sendo exigidos para aprovação de drogas da indústria farmacêutica, então sempre haverá testes com animais no histórico dos medicamentos, independentemente do resultado. O argumento incorre em um típico problema de correlação espúria, tão comum nas ciências. Em outras palavras: existe uma relação entre testes com animais e drogas bem-sucedidas lançadas no mercado, mas que não permite deduzir que haja uma relação de causa-feito entre ambos, que os testes com animais determinam o sucesso dos medicamentos. Como é evidente, há um terceiro fator que explica a elevada (no caso, perfeita) correlação entre testes com animais x drogas bem-sucedidas, que é a legislação que determina o emprego de testes com animais para a certificação de qualquer medicamento, quaisquer que sejam seus possíveis resultados (ver mais a respeito adiante). É surpreendente ver cientistas defenderem seus pontos de vista com esse tipo de argumento.

Essa questão relaciona-se a mais um aspecto que foi omitido nas manifestações recentes que consultei dos profissionais dos laboratórios: o de que os testes com animais apresentam reduzida “capacidade de predição” em relação aos organismos humanos. Já houve quem dissesse que a chance dos resultados em animais serem replicados em humanos variaria de 5 a 25% dos casos, dependendo do animal, da droga e da doença. Por exemplo, no caso de estudos na área de oncologia, é frequente o relato de “predictability” em torno de 5% nos experimentos com ratos. Mas o percentual pode ser ainda menor em outros casos, como veremos abaixo. A rigor, esse resultado pouco relevante não expressa sequer uma pequena “capacidade de predição” dos resultados em humanos, mas antes uma simples correlação entre dois fenômenos que podem não ter qualquer vínculo causal.

O grande problema com esses resultados é que a base de uma ciência experimental é a capacidade de predição do modelo ou do teste, que poderia ser extrapolado para outras situações, no caso o organismo humano. Nesta situação, o uso do “modelo animal” nos testes pré-clínicos para a descoberta de novas drogas (anterior à fase clínica de testes com humanos voluntários) é um guia precário em termos estatísticos. A fragilidade ou irrelevância estatística do uso de animais como base para testes de novos medicamentos gera resultados paradoxais. De um lado, há dezenas de drogas que produziram efeitos terapêuticos sobre doenças como câncer e HIV induzidas em animais nos laboratórios, mas tiveram efeito nulo em organismos humanos. Por outro lado, há vários medicamentos importantes cujos testes com animais foram negativos. Ou seja, esses medicamentos teriam sido descartados se dependessem do uso de animais para testes – casos da penicilina e aspirina, por exemplo. Além disso, há numerosos medicamentos que foram aprovados para uso comercial tendo por base os testes pré-clinicos com animais (além da fase clínica com voluntários) e que em seguida se revelaram danosos ou fatais para os seus usuários. Talidomida é o caso clássico (que utilizou 1 espécie de animal nos testes), acompanhado de outros como Eraldim e Suprofen (testes com múltiplos animais). Nenhuma dessas questões bastante conhecidas foi abordada pelos profissionais que vieram a público defender o Instituto Royal. Pelo contrário, esses profissionais têm insistido sempre em afirmar que o sacrifício dos animais é necessário para todas as descobertas da medicina, a começar pelos beagles do Instituto Royal.

As razões do apego aos testes com animais na indústria são múltiplas, inclusive os interesses econômicos. Mas uma das mais importantes é o fato de que esses testes são tomados como default, mesmo quando não são obrigatórios por lei. Uma ilustração do poder de uma combinação que envolve convenções, práticas arraigadas e resistência às evidências pode ser dada por um trabalho acadêmico recente (2013) – ver aqui e aqui. Uso esse exemplo porque os autores são insuspeitos, uma vez que eles não se opõem por princípio aos testes com animais. Na pesquisa, os dois pesquisadores de Stanford e Harvard e sua equipe coletaram por 10 anos um detalhado banco de dados para um estudo (sem uso de animais) sobre as causas de infecções que levam à septicemia em organismos humanos. Ao tentarem publicar seus resultados, enfrentaram a objeção de que os testes não demonstravam que as mesmas respostas genéticas observadas em humanos poderiam ser constatadas em camundongos. Diz um dos coordenadores da pesquisa sobre os pareceristas que “Eles estão tão arraigados em tentar a cura dos camundongos que esqueceram que nós estamos tentando curar humanos.” Daí os pesquisadores partiram para a realização de testes com uma espécie de camundongo (o “modelo animal” básico utilizado na área) prevendo que encontrariam alguma relação estatística. Porém, os resultados foram desapontadores e, para eles, surpreendentes: não houve correlação entre os resultados dos testes com humanos e camundongos, o padrão foi aleatório (correlação de Pearson entre 0.0 e 0.1), o que atribuíram às diferenças genômicas entre camundongos e humanos e, por consequência, à inadequação do teste com o animal que constitui a base das avaliações pré-clínicas para novas drogas, tanto nas áreas de infecção aguda quanto em outras igualmente importantes.

Ao tentarem publicar os seus resultados, os autores do estudo tiveram novas recusas, inclusive na Nature e Science, antes do trabalho ser publicado sob condições especiais em um periódico acadêmico. Segundo os autores, nos pareceres negativos daquelas revistas não houve indicação de “erros científicos”; em vez disso, “a resposta mais comum foi ‘Isto deve estar errado. Eu não sei porque está errado, mas deve estar errado’.” Os autores sugerem que os “modelos animais” ainda possam ser aperfeiçoados, mas apontam que a prioridade deve ser dada a estudos mais complexos das condições humanas em vez de camundongos para a descoberta de medicamentos na sua área de estudo. Um especialista externo à equipe ouvido sobre o caso, também adepto dos testes com animais, declarou que “Esses dados são tão persuasivos e tão robustos que eu acredito que as agências de financiamento irão levar em conta.” Até agora (2013), diz, “para obter financiamento, você tem de propor experimentos utilizando o modelo com camundongos.” Sob tais circunstâncias, não parece coincidência que quase 150 medicamentos para septicemia tenham sido bem-sucedidos até hoje quando testados em animais com septcemia induzida em laboratórios, mas nenhum sequer tenha trazido resultados positivos em humanos.

O que se depreende deste caso é que a premissa de que o default (uso de animais) é estatisticamente relevante é tão forte que ela é autoconclusiva. Eventuais e raros testes que põem em xeque a premissa tendem a ser ignorados ou rejeitados, ainda que usando argumentos puramente – e ironicamente – anticientíficos (“Eu não sei porque está errado, mas isto deve estar errado”). Por sua vez, a indústria farmacêutica, os órgãos reguladores e as agências de financiamento impõem como padrão o teste com animais, indiferentes quanto à sua relevância estatística ou não. O que deveria ser uma atividade guiada por observação das evidências, experimentos cuidadosos e resultados estatísticos, torna-se um processo de tentativa e erro em que se sacrificam animais inutilmente e, além disso, coloca-se em risco os voluntários humanos nas diferentes fases clínicas dos testes, sem mencionar os pacientes após a aprovação do medicamento. Pesquisadores adaptam-se ao padrão tornando os testes convencionais e o reforçam nas agências e entidades – e para o público – repetindo que eles são essenciais, à revelia dos resultados estatísticos, mesmo quando o principal teste é uma simples correlação entre duas variáveis, sujeita à influência de terceiros fatores não incluídos no experimento e a conclusões espúrias.

O artigo sobre septicemia citado acima não foi escolhido a dedo entre outros contrários para corroborar um argumento. Estudos abrangentes de experimentos (“meta-análises” e “revisões sitemáticas”) na área de pesquisa médica têm levantado os problemas derivados da extrapolação para humanos dos testes com animais na produção de medicamentos. Além disso, há outras distorções igualmente sérias nas pesquisas com animais: por exemplo, o uso difundido de amostras pequenas sem o devido cuidado e com resultados viesados, e a forte tendência (muitas vezes induzida pela indústria farmacêutica) de relatar seletivamente apenas os resultados “positivos”, desprezando os testes com resultados que possam retardar ou impedir a aprovação de medicamentos pelos órgãos certificadores.

Seria de esperar, portanto, que os problemas relatados acima levassem os que defendem os testes com animais pelo menos a uma atitude bem mais modesta e cautelosa. A fragilidade de métodos e resultados torna pouco convincente o argumento de que os testes com camundongos, beagles e primatas são o fundamento da ciência moderna ou um requisito inescapável para o avanço científico e até o desenvolvimento nacional, como se tem afirmado. Omitir e distorcer a realidade dos experimentos com animais não é o que se espera de uma parte da comunidade que se diz científica, nem a melhor atitude em favor do desenvolvimento de novas técnicas mais sofisticadas e eficazes, que gerem desenvolvimento tecnológico e bem-estar para o conjunto da sociedade, inclusive os animais e a natureza.

[Continua]

Veja a Parte 3 aqui (em breve).

Parte 1 aqui

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