Renato Perim Colistete

Economia, História e História Econômica

Archive for fevereiro \14\UTC 2017

Destino e Ascensão Social

Posted by Renato em 14/02/2017

Um intrigante e engenhoso artigo de Irineu de Carvalho Filho na Folha, “Nosso destino depende da sorte?“. Texto curto, mas com muita pesquisa por trás. Uma amostra com os dois primeiros parágrafos :

Martinho teve uma vida diferente daquela de todos nós. Ele foi um escravo na vila de Nazaré Paulista no fim do século 18. Seu proprietário, um lavrador nascido em Guarulhos chamado Pedro Gomes Correa,  teve mais de uma dezena de filhos e era um membro da classe média senhorial, com um plantel de não mais que 5 escravos. Muito provavelmente Pedro e seus filhos trabalhavam a terra junto com seus escravos, plantando milho e feijão para sua subsistência. Sabemos um pouco mais sobre a vida de Martinho. Apesar de escravo, ele foi casado com uma mulher livre e com um sobrenome, Joanna Leme. Quando sua esposa faleceu em 1787, foi descrito como escravo pardo. Seria ele um filho ou irmão bastardo de seu senhor? É possível, já que há um escravo Martinho nascido em Guarulhos em 1740 cujo padrinho de batismo foi o pai de seu proprietário. De seu casamento, Martinho teve 5 filhos, todos livres já que nascidos de uma mãe livre. Podemos apenas especular sobre o relacionamento entre Martinho e seu senhor, mas dois de seus filhos, Anna e Manoel, tiveram como padrinho de casamento um dos filhos do então finado Pedro Gomes Correa, enquanto seu filho Manoel adotou o sobrenome Correa do senhor de seu pai.

O que deve ter passado pela cabeça de Martinho, aos 64 anos, vendo seu filho Manoel Correa Leme, livre, casando com uma esposa livre? Podemos apenas imaginar. O casamento de seu filho Manoel foi a última notícia que temos de Martinho. Mas sabemos que seu filho Manoel se mudou para Campinas e teve pelo menos 4 filhas. Segundo os livros da paróquia de Campinas, suas filhas seriam brancas. Como pequeno lavrador livre em uma vila se desenvolvendo rapidamente, a ascensão social era possível. Sua filha Maria do Carmo casou-se com um homem de propriedades, mais velho, residente em Mogi Mirim. E sua neta Anna casou-se em Limeira aos 17 anos com um fazendeiro rico, um viúvo de 50 anos, dono de um plantel de mais de duas dezenas de escravos e com relações na Corte do Rio de Janeiro.”

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