Renato Perim Colistete

Economia, História e História Econômica

Carta aberta à SBPC

Posted by Renato em 19/10/2013

Enviada para: Jornal da Ciência, Diretoria da SBPC e Conselheiros.

Prezados(as) Srs(as),

Lamentáveis os argumentos e as intenções subliminares contidos no texto “A comunidade científica brasileira esclarece” divulgado à imprensa e no site do Jornal da Ciência da SBPC em 18/10/2013.

O texto é uma defesa intempestiva, irrefletida e parcial de uma entidade (o Instituto Royal) que está sendo questionada publicamente por suas práticas e procedimentos. Estranhamente para um “esclarecimento” que se intitula da “comunidade científica”, o texto ignora evidências de maus tratos e crueldade que foram registradas nos recintos da entidade e nos animais resgatados, evidências que estão circulando na imprensa e na mídia social. Autodenominados “cientistas” que rejeitam evidências de antemão, para defender uma entidade sob acusação de má conduta citando normas e órgãos burocráticos, levantam a suspeita de incapacidade de defender legitima e publicamente seus argumentos.

Lamentável a arrogância expressa no texto, por exemplo quando afirma que a invasão “revela o desconhecimento por parte de quem praticou tais atos sobre a importância da utilização de animais para o desenvolvimento de novos medicamentos [somente?] e tratamentos para o ser humano.” Por que “desconhecimento”? Presumir que somente “cientistas” (que curiosamente rejeitam evidências a priori) possuem o “conhecimento” das implicações do uso de animais em testes, laboratórios, cursos, etc., é um recurso de retórica primário e propositalmente enganador, pois sabem muito bem eles ou elas que redigiram o texto que os limites de atividades com humanos ou animais estão sujeitos a normas éticas, subjetivas e definidas socialmente, que vão muito além dos interesses específicos de um grupo de “cientistas” ou de instituições e empresas a que servem. Não é por outro motivo que todas essas questões têm sido há tempos debatidas internacionalmente, e não só pelos que se consideram os únicos capazes, habilitados e imediatamente interessados.  Se é assim, todos – não só autodefinidos “cientistas” – podem e devem opinar e se manifestar quanto a esses limites, normas e definições. Ou o ato de discordar de normas técnicas estabelecidas por órgãos burocráticos (supondo que o Instituto Royal seja perfeito na observância de tais regras, e que tais regras sejam o supra-sumo da benignidade, como sustenta passionalmente o texto) é, por dedução, “desconhecimento”? Ou, ainda, quer alguém convencer-nos de que está acima das opiniões de uma sociedade no que diz respeito a normas e regras de suas atividades enquanto “cientistas”, como um Mengele da atualidade?

Seria de esperar que um texto que diz representar uma comunidade científica – mesmo sendo tão ostensivamente dócil com a entidade acusada e, ao mesmo tempo, tão hostil com os ativistas da causa e os animais submetidos a testes – apresentasse uma descrição integral das atividades da entidade que está defendendo, não apenas destacando as alegadas observância estrita de normas burocráticas e excelência científica. Tão relevantes quanto esses aspectos frisados no texto são as condições de operação e a natureza da própria entidade: quais são os recursos privados envolvidos nas pesquisas com animais? O quanto há de recursos públicos (sabe-se que volumosos)? Quais são as relações das pessoas ligadas ao Instituto Royal com universidades, empresas privadas e órgãos governamentais? E para quais tipos de empresas o Instituto trabalha? É realmente verdade o que o texto afirma, que “O Instituto realiza estudos de avaliação de risco e segurança de novos medicamentos”, dando a entender que apenas isso? Ou que, como diz mais adiante, o Instituto realiza estudos para “diferentes tipos de setores produtivos (produtos farmacêuticos, produtos para a saúde, dispositivos médicos, agrotóxicos, produtos químicos e veterinários, aditivos para rações e alimentos, entre outros)”? Apenas esses, de fato? Não incluem empresas de cosméticos, por exemplo, como são acusados? O que serão “entre outros”? Como um “esclarecimento”, o texto da SBPC deveria dar respostas claras a todas essas indagações, pois elas são parte dos motivos da ação organizada em defesa dos animais presos. Pela natureza da entidade que diz representar, o texto deveria primar pela objetividade, transparência e imparcialidade. O fato de que não o tenha feito, e de que tenha preferido ser seletivo nos aspectos destacados, só pode levantar dúvidas e suspeitas sobre o que pode estar oculto ou dissimulado.

Por fim, é lamentável que o texto seja divulgado sem a assinatura da diretoria da SBPC (pode-se presumir que seja dela a autoria do “esclarecimento”?) [mas ver abaixo]. É um texto sem autoria assumida e, como tal, presta-se à especulação: será que foi discutido em reunião urgente da diretoria da SBPC, será que houve consulta às opiniões de conselheiros e regionais? E os sócios, todos pensam – ou a maioria pensa – tal como o que foi veiculado no texto, ao ponto da diretoria ou parte dela se sentir autorizada a defender instantaneamente o Instituto Royal? Será? A estratégia dos autores do “esclarecimento”, contudo, sejam lá quem forem, foi além da omissão dos responsáveis. Talvez o mais reprovável do “esclarecimento” seja a suprema soberba – e suprema tentativa de mistificação – de se autodenominar “a comunidade científica brasileira” – “A comunidade científica gostaria ainda de deixar claro”, diz o texto ao final, assim como o próprio título. Um “esclarecimento” aos autores do texto da SBPC: a ciência utilizada para dominar e dissimular nunca esteve ao lado das boas causas da história.

Obviamente não espero mudanças na posição da diretoria da SBPC, mas não tinha como evitar o protesto.

Att

PS: desde a publicação do “esclarecimento” da “comunidade científica brasileira” no dia 18/10, o texto não continha autoria ou qualquer nome associado a ele, como foi dito acima. Assim ficou por dias, até que hoje (25/10) constatei que curiosamente foi inserido o nome da presidente da SBPC (“Artigo de Helena Nader* para o Jornal da Ciência”, com crédito ao final), mantendo a data original da publicação. Nenhuma observação, porém, foi adicionada explicando que a autoria do texto foi incluída *posteriormente*, depois de protestos, o que não constitui o procedimento correto nestes casos. Mas não é tarde para corrigir o deslize, a menos que a intenção seja reescrever a história, um artifício antigo [adicionado em 9/11]. Poderia aproveitar também a presidente para corrigir a forma um pouco excessiva de se autodenominar “a comunidade científica brasileira”, como ficou no texto. Aguardemos as modificações.

 

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