Renato Perim Colistete

Economia, História e História Econômica

Archive for agosto \29\UTC 2011

As tendências da historiografia

Posted by Renato em 29/08/2011

É sabido que o estudo da história econômica surgiu em uma época em que a história dos acontecimentos políticos e dos grandes personagens dominava a historiografia. Foi aos poucos, a partir do final do século XIX principalmente, que historiadores de várias partes começaram a retratar aspectos econômicos e sociais sob uma nova perspectiva, distinta das narrativas políticas tradicionais e que se voltava às condições da indústria, da agricultura, do comércio e das populações que deles viviam. Entre os exemplos dessa tendência estão os historiadores dos Annales e outros como Henri Pirenne, Eli Hecksher e Arnold Toynbee.

Podemos ter uma ideia mais precisa, embora indireta, da emergência da história econômica por meio do Google Ngram Viewer,  um programa que calcula a frequência com que determinadas palavras ou combinações de palavras apareceram em livros publicados em diversos países e línguas. Ou seja, é uma espécie de análise quantitativa da história cultural, vista pelos livros publicados (o banco de dados é o dos livros compilados no Google Books).

Na figura a seguir (ou clique aqui; é necessário ter uma conta do google aberta, como a do gmail), é possível ver que o termo “economic history” (linha vermelha) começa a aparecer com alguma importância nos livros publicados nos Estados Unidos somente a partir da década de 1880. Por décadas, o crescimento é rápido e praticamente contínuo, rivalizando com outra nova área da historiografia, “social history” (linha azul) – na verdade, muitas vezes aparecendo juntas sob o termo “economic and social history” – e chegando a desafiar a tradicional “political history” (linha verde).

No gráfico, também se percebe que o crescimento da frequência com que “história econômica” aparecia nos livros publicados nos EUA foi interrompido no final da década de 1960. Desde então o declínio tem sido acentuado, alcançando seu ponto mais baixo nos anos recentes da década de 2000. Essa parece ser uma boa descrição da perda de prestígio da história econômica entre os historiadores que tem sido detectada há tempos, como se traduz, por exemplo, pelo baixo número de estudantes e professores interessados na área nos cursos de graduação e pós-graduação. É interessante também notar que essa é uma tendência internacional, apesar das variações entre países (no caso dos livros publicados na Grã-Bretanha, o declínio dos termos “história econômica” inicia-se mais tarde, na década de 1980; no caso dos publicados em espanhol, o declínio é ainda mais tardio: na década de 1990).

Na figura acima é visível que a “história social” diverge da tendência da “história econômica” até a década de 1990, quando também reverte o seu crescimento e inicia uma queda livre. Já a “história política” começa um lento mas persistente declínio desde a década de 1890, o que parece refletir a ascensão das outras áreas da história.

Por fim, o termo “cultural history” (linha amarela) começa uma ascensão impressionante na década de 1920, com novo salto nos anos 1980 e 1990, quando sua frequência ultrapassa tanto “história econômica” quanto “história política”. Esses dados refletem a grande voga da história cultural entre os pesquisadores, ao mesmo tempo que corroboram a percepção de que temas clássicos e importantes da história econômica têm sido hoje relativamente menos estudados do que no passado.

Anúncios

Posted in História Econômica | 3 Comments »

Um outro modelo de educação

Posted by Renato em 21/08/2011

Nos últimos 15 anos, governos, ministros da educação e autoproclamados especialistas têm se empenhado em transformar a educação no Brasil em sinônimo de provas, testes padronizados, rankings, concursos, avaliações e premiações para os mais capazes. A ideia central dessa concepção do ensino escolar pode ser resumida em uma palavra: competição. Competição entre alunos, competição entre professores, competição entre escolas, competição por recursos. As condições dos professores, das crianças, das escolas e das famílias pouco importam, o principal é o indivíduo, a responsabilidade individual. É verdade que não estamos sozinhos, pois um grande número de países tem seguido esse caminho, a começar pelos Estados Unidos. Mas isso não é garantia de que a trilha seja a mais correta ou promissora.

A experiência da Finlândia tem sido já há algum tempo citada como uma forma distinta de ver a educação como política pública. Na verdade, a Finlândia iniciou décadas atrás uma mudança radical no seu sistema escolar e foi, paradoxalmente, um teste internacional (o PISA) que atraiu a atenção para um país que consistentemente tem apresentado um dos melhores desempenhos em todas as áreas de ensino avaliadas. Os que defendem a competição como princípio às vezes citam a Coreia como justificativa, mas o modelo coreano também não se resume a esse fator (por exemplo, os professores primários coreanos estão entre os mais bem remunerados e formam uma categoria altamente respeitada). A Finlândia, por sua vez, além de ter elevado os professores e as escolas à condição de prioridade nacional, rejeita por princípio a competição como princípio educacional.

A revista Smithsonian publicou no seu último número uma matéria sobre o sistema educacional finlandês, que diz (ver a matéria completa aqui):

“There are no mandated standardized tests in Finland, apart from one exam at the end of students’ senior year in high school. There are no rankings, no comparisons or competition between students, schools or regions. Finland’s schools are publicly funded. The people in the government agencies running them, from national officials to local authorities, are educators, not business people, military leaders or career politicians. Every school has the same national goals and draws from the same pool of university-trained educators. The result is that a Finnish child has a good shot at getting the same quality education no matter whether he or she lives in a rural village or a university town. The differences between weakest and strongest students are the smallest in the world, according to the most recent survey by the Organization for Economic Co-operation and Development (OECD). “Equality is the most important word in Finnish education. All political parties on the right and left agree on this,” said Olli Luukkainen, president of Finland’s powerful teachers union.”

Posted in Desigualdade, Educação | Leave a Comment »

Dívida pública ontem e hoje

Posted by Renato em 06/08/2011

Agora, com o rebaixamento dos títulos de longo prazo do Tesouro americano pela Standand & Poor, a discussão sobre sustentabilidade da dívida pública ganha um novo impulso. Além dos vários países europeus em sérias dificuldades, a ameaça de mais um choque torna o cenário da crise que se iniciou em 2008 ainda mais incerto.

Um quadro publicado pela The Economist (ver abaixo) resume bem a situação de alguns países do ponto de vista da sustentabilidade da dívida pública. Os países já em profunda crise estão todos lá, com indicadores críticos: Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha. Outros, com sinais claros de deterioração apesar do tamanho de suas economias, também: Japão, Estados Unidos, Itália, França e Holanda.

Outros casos igualmente ilustrativos, mas por motivos opostos, estão no final da tabela: Finlândia e Suécia. Ambos países passaram por graves crises no início da década de 1990. Para a maioria dos analistas, a crise fiscal – que na Suécia (e Finlândia) foi acompanhada por crescimento negativo por 3 anos consecutivos, rápida elevação do desemprego, altas taxas de juros e crescentes déficits – representava não só o fracasso do Estado de Bem-Estar Social em seu país-símbolo, mas a demonstração de sua inviabilidade futura.

Após um sofrido, mas bem-sucedido programa de consolidação fiscal, a Suécia e Finlândia hoje apresentam indicadores bastante positivos, quase uma exceção no presente quadro internacional. E sem destruir os fundamentos do bem-estar social, como havia previsto a maioria dos especialistas, talvez movidos por wishful thinking.

Posted in História Econômica | Leave a Comment »

Historiadores Econômicos no Brasil

Posted by Renato em 05/08/2011

De acordo com um levantamento feito em uma pesquisa de Jörg Baten e Julia Muschallik, da Universidade de Tübingen, a distribuição geográfica dos historiadores econômicos pelo mundo é bastante desigual, considerando a população dos países. E no caso do Brasil, ainda se tem de formar muitos pesquisadores na área (embora os dados não sejam lá muito bons). Veja o gráfico abaixo, com países selecionados.


Posted in História Econômica | Leave a Comment »